De repente, percebi-me atenta a cada etapa de preparação do prato mais tradicional da minha mãe. Todo o processo requer uma habilidade única, que só pode ser transmitida face a face. Não existem cadernos de anotações nem copos de medida. Era apenas eu, com os olhos fixos no fogão, e minha mãe, descrevendo passo a passo a concepção de um delicioso frango.
É certo que na cozinha não há limites para a imaginação, mas, para minha mãe tudo é cronologicamente organizado. Desde a escolha das panelas até a seleção dos ingredientes, é fundamental que o alimento seja preparado com um propósito e, nesse caso, o frango tem um objetivo central: reunir a família.
Meus parentes costumam se unir aos domingos para almoçar, com a participação de amigos e outros agregados. O importante é que não falte um prato de comida para quem estiver presente na confraternização, mesmo que para isso seja preciso matar um frango de última hora. E, segundo minha mãe, o alimento fresco é o elemento principal para o sucesso de um prato.
Ao dizer isso, ela se voltou para o pote de temperos e escolheu a quantidade perfeita para revigorar a cor da carne. Nesse momento, pensei em como seria bom se fosse possível renovar meus pensamentos e minha força de vontade com apenas alguns condimentos. O frango tomou vitalidade e o aroma contagiou o ambiente. Agora tenho certeza que o cheiro de cebola fritando é o melhor do mundo.
"Você tem gostos engraçados", disse ela. Isso me ajudou a entender a peculiaridade do ser humano, mesmo que seja pelo reconhecimento de certos hábitos excêntricos. Tornei a concentrar-me na preparação do frango, que de um jeito único foi desenvolvido por minha mãe. Então, imaginei como ela adquiriu o seu modo de cozinhar.
Você está agora no ano de 1974. Minha mãe tinha 11 anos e ainda era uma aprendiz. Não sabia como lidar com a chama do fogão a lenha nem a forma correta de manusear uma colher. Mas, minha avó, sabiamente, a ensinou cada método com detalhes. É um conhecimento que percorre gerações e, agora, chegou até mim.
Talvez eu não consiga reproduzir fielmente o clássico prato da família e pode ser que eu também não goste de fazer isso. Porém, estou aqui em frente ao fogão esforçando-me para dar vida ao alimento que consegue unir pessoas e é testemunha da alegria de todas as minhas manhãs de domingo.